ALUSÃO

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ALUSÃO

Referência explícita ou implícita a uma obra de arte, um facto histórico ou um autor, para servir de termo de comparação, e que apela à capacidade de associação de ideias do leitor. O recurso à alusão literária testemunha a relação de um autor com a tradição que representa ou com a qual se identifica. Contudo, como aconteceu por exemplo na literatura religiosa medieval, a alusão pode servir apenas para exibir erudição. Só pelo processo de reconhecimento e/ou reidentificação desta relação por parte do leitor é que a alusão se pode tornar efectiva, pelo que tem uma função mais exigente do que a mera citação. A alusão difere desta ainda pelo facto de o seu sentido depender fortemente do contexto em que esta inserida. Por exemplo, no enunciado: “O meu clube alcançou uma vitória de Pirro.”, o leitor só poderá descodificar a associação estabelecida se conhecer a história do célebre general grego que, após uma difícil vitória terá afirmado: “Mais uma vitória como esta e estou perdido.”. A alusão à vitória de Pirro passou a significar em qualquer contexto um triunfo difícil. Porque põe, invariavelmente, em correlação dois termos de significado autónomo (“o meu clube” e “Pirro”), pode-se dizer que a alusão tem sempre um carácter metafórico; porque condensa numa só expressão um conjunto de significados interelacionados (“a vitória difícil do meu clube assemelha-se à vitória difícil de Pirro e, como esta, pode trazer consequências contraproducentes, por exemplo, por terem sido expulsos e/ou lesionados vários jogadores da minha equipa”), tem também um carácter parafrástico. A metáfora e a paráfrase não devem ser, pois, condições diferenciadoras dos vários tipos possíveis de alusão.

Podemos distinguir os quatro seguintes tipos de alusão, conforme o objecto referenciado: 1) Nominal, quando se refere a um nome próprio do conhecimento geral Por exemplo, nos seguintes versos de António Ferreira: “Quantos antes de Homero mal cantaram! / Quanto tempo Sicília, quanto Atenas, / Que despois tal som deram, se calaram!” (“Carta a D. Simão Silveira”, in Poemas Lusitanos, 1598), “Homero” representa o primeiro modelo de poeta, “Sicília” é uma alusão à escola de poetas que aí se desenvolveu durante o reinado de Frederico II e de seu filho Manfredi (século XIII) e “Atenas” sintetiza a tradição literária pré-clássica e clássica, que serviu de modelo a toda a cultura ocidental. 2) Pessoal, quando se refere a um indivíduo do conhecimento particular do autor, podendo incluir-se nesta categoria as auto-referências. Está neste caso o exemplo normativo das cantigas de amor medievais, que obrigavam ao ocultamento do nome da mulher amada, pelo que só por alusões o poeta se lhe podia dirigir; geralmente, o amante protege-se com o nome “senhor”, que é sempre uma alusão à “dona”. O caso das auto-referências tem uma vasta tradição poética, desde as lamentações de Virgílio, nas Éclogas, à poesia contemporânea de W. B. Yeats, repleta de alusões restritas à vida privada do próprio autor. 3) Histórica, quando se refere a acontecimentos passados ou recentes. Quando Boileau disse de Homero que “tudo quanto tocou se transformou em ouro”, compreendemos a alusão à lenda de Midas, rei da antiga Frígia, que terá recebido de Diónisos esse dom que o Autor da Arte Poética atribuiu metaforicamente a Homero. 4) Textual, quando se refere a textos preexistentes na tradição literária. Por exemplo, em “Homenagem a Tomás António de Gonzaga”, Jorge de Sena escreve: Gonzaga, podias não ter dito mais nada, / (…) / Mas uma vez disseste: / “eu tenho um coração maior que o mundo”. / Pouco importa em que circunstâncias o disseste: / Um coração maior que o mundo - / uma das mais raras coisas / que um poeta disse. (Poesia III, Edições 70, Lisboa, 1989, p.95). A citação de Gonzaga é uma alusão textual no sentido em que reproduz uma parte de uma obra preexistente para servir de pretexto à ironia de Jorge de Sena. Podemos dizer que pelo menos todas as citações que funcionam como artifícios literários são alusões textuais. Uma obra literária pode ser, no seu todo, uma alusão de um texto anterior, como no caso do Ulysses de James Joyce, que alude à Odisseia de Homero.

Fenómenos como a paródia e a sátira podem recorrer à alusão, mas porque todos os tipos considerados podem servir-se destes recursos, não é correcto falar de “alusão parodística” e “alusão satírica” como espécies diferenciadas. A alusão possui características tais que a permitem combinar-se com a paródia, por exemplo, mas já não tem o mesmo objectivo de contra-estilização destrutiva que é essencial para compreendermos a essência da paródia. Só aliada à paródia, a alusão pode cumprir esse objectivo. Seja o caso de A Velhice da Madre Eterna (1885), de Xavier de Carvalho, que é uma paródia à A Velhice do Padre Eterno (1885) de Guerra Junqueiro. Aqui, por exemplo, procura-se a ridicularização de um estilo preexistente, que só funciona se o objecto parodiado for aludido. A paródia pode ir mais longe do que a simples alusão: não se contentando com a denúncia, pode também julgar e condenar à morte artística aquilo que parodia. A alusão deve ser ainda distinguida da paródia, como recursos autónomos mas interelacionados, porque toda a repetição ou retoma de um texto a ser objecto de paródia tem que pressupor uma diferenciação; na alusão, apenas se referencia, e não se transforma. Na paródia, o texto A que parodia o texto B tem que resultar diferente pelo sentido, pela ideologia (como sistema de ideias do texto) e/ou pela forma; por seu lado, a alusão procura a identificação do sentido de duas proposições ou situações diferentes à partida. A paródia não é uma duplicatio de estilos ou de textos, como pode acontecer na alusão, mas é um efeito metalinguístico que se obtém sempre por meio de uma diferença subentendida. Por aqui, os dois recursos respeitam a mesma condição de recepção. Se aquilo que separa os dois textos (A- parodiante/alusivo e B-parodiado/aludido) não ficar subentendido, o leitor não reconhecerá o efeito pretendido, assumindo tratar-se de mera paráfrase. Em suma, a alusão é reafirmadora do sentido; a paródia é desafiadora de tudo o que num texto preexistente suportar ser desconstruído.

Se a alusão é a referência directa ou indirecta de um texto preexistente, a citação é a transcrição completa de um texto preexistente. A alusão referencia, mas não deforma, não censura, não imita, não desenvolve e não transcreve um texto preexistente; a citação transcreve, imita e referencia, mas não deforma, não censura e não desenvolve um texto pré-existente. Os casos da alusão e da citação podem seguir o mesmo padrão acriativo do plágio - salvaguardem-se os casos que à frente se descrevem de alusões criativas. Luís António de Verney deu-nos já um curioso diagnóstico dos abusos destas formas de imitação discursiva: “Outro defeito ainda acho, em que comummente caem, e vem a ser encher o discurso de alegações importunas, de passos latinos, de versinhos, e outras coisas que encontram. Podem as alusões, alegações etc. ter lugar, quando há necessidade de ouvir as palavras na mesma língua original, ou para mostrar a sinceridade de quem as cita, ou a elegância de quem as escreveu, o que raras vezes sucede.” (Verdadeiro Método de Estudar, vol.II: Estudos Literários, Sá da Costa, Lisboa, 1950, pp.106-107). Este propósito de validação estética e científica da alusão e da citação não pode ser partilhado pela paródia, que, pelo contrário, não valida mas invalida o sentido original parodiado. A alusão e a citação baseiam-se numa relação de correspondência verbal entre dois textos, ao passo que a paródia difere sempre do texto que parodia. Como regra geral, certamente sujeita a excepções, podemos dizer que citamos e/ou aludimos para comprovar um ponto forte e parodiamos para mostrar uma fraqueza.

Bibliografia

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